Autor: Anderson Silva
Texto técnico publicado nas revistas: Labor News 224 e Laes & Haes 192

A função principal da coagulação ou hemóstase é evitar a perda de sangue quando ocorre algum trauma vascular em pequenos vasos sanguíneos.
Este processo é muito complexo e envolve mudanças físicas e químicas do sangue, evitando hemorragia pela formação do coágulo com objetivo de interromper a perda de sangue.
Após o trauma vascular ocorre uma constrição vascular imediata e em aproximadamente 15 segundos as plaquetas formam um tampão plaquetário no local onde as células endoteliais foram danificadas, o que é denominado hemostasia primária.
A hemostasia secundária é o desencadeamento de uma cascata de reações envolvendo componentes do plasma, que culmina com a formação de uma rede de fibrina que aprisiona eritrócitos, leucócitos e plaquetas. Esta massa é o coágulo formado que adere às paredes dos vasos sanguíneos para controlar a perda de sangue.
A cascata de coagulação pode ser desencadeada por 2 vias distintas (via intrínseca e via extrínseca), que podem ser estimuladas simultaneamente ou não. O final da reação em cascata iniciada pelas 2 vias, é uma via comum para a formação do coágulo sanguíneo.
A via intrínseca é desencadeada pelo contato com plaquetas ativadas ou componentes do tecido subendotelial. Os fatores participantes da via intrínseca estão presentes no sangue circulante e é a ativação do fator XII que inicia esta via. As proteínas e íons envolvidas nesta via  são: Fatores XII, XI, IX, VII e X, pré-cralicreína, cininogênio (CAPM), fator 3 plaquetário, cálcio e fosfolipídeos, além da vitamina k.
A via extrínseca da cascata de coagulação é uma via do fator tecidual, estimulada pela tromboplastina tissular. Estão envolvidos nesta via a ativação dos fatores VII e X, na presença dos Fatores III, VII, cálcio e fosfolipídeos.
A via comum da cascata de coagulação, iniciada pela ativação do fator X, envolve os Fatores VIIIa e Va, protrombina, cálcio, fosfolipídeos e fibrinogênio.
Medicações (ex: Heparina, Warfarin, Ácido Acetil Salicílico, vitamina k, dentre outros), doenças hemorrágicas e purpúricas podem interferir na cascata de coagulação, impedindo a hemostasia.
A investigação clínica de deficiência de fatores de coagulação, assim como o acompanhamento de terapias anticoagulantes são realizadas pela solicitação de provas de coagulação, por laboratórios de análises clínicas, como a Determinação do Tempo de Protrombina (TP) e Tempo de Tromboplastina Parcial ativada TTPa).
A realização de tais análises é melindrosa, requerendo cuidados técnicos na coleta e na execução dos ensaios tais como:

  • Minimiza a lesão tecidual decorrente da punção venosa;
  • A seringas e os frascos de acondicionamento de sangue e plasma devem ser plástico ou siliconizados, pois o contato com vidro ativa o sistema de coagulação in vitro;
  • O anticoagulante de escolha é o citrato de sódio a 3,2% ou 3,8%;
  • O plasma deve ser separado em até 30 minutos após a coleta e a prova a ser executada deve ser preferencialmente realizada de imediato.
  • Recomenda-se a realização dos ensaios em duplicata para maior confiabilidade nos resultados gerados;
  • O laboratório deve estabelecer seus próprios intervalos de variação normal realizando a média de duplicatas de um pool de plasma de voluntários sadios;
  • A água purificada utilizada na resuspensão de reagentes liofilizados deve ser de ótima qualidade, pois a presença de íons interfere no ensaio.

A determinação do Tempo de Protrombina (TP), também denominado “Tempo de Quick de um estágio”, avalia a atividade coagulante do sistema extrínseco da cascata de coagulação. O reagente para análise in vitro contem fator tecidual, fosfolípides e cálcio, enquanto o plasma em análise, se for normal, fornecerá os Fatores V, VII e X, protrombina (Fator II) e fibrinogênio (Fator I).A deficiência ou ausência de qualquer um desses fatores prolongará o tempo de coagulação do ensaio.
A comparação de resultados de TP obtidos entre diferentes fabricantes só deve ser realizada utilizando o RNI (Razão Internacional Normalizada), calculando com base no Índice Internacional de Sensibilidade (ISI) dos reagentes experimentalmente.
O ISI deve ser fornecido pelo fabricante do reagente, sendo preferencial o reagente com ISI mais próximo de 1.00.
A determinação do Tempo de Tromboplastina parcial ativada (TTPa), também denominada “Tempo de Kaolin-Cefalina”, é uma prova que avalia a via intrínseca da coagulação, pela recalcificação, onde as variáveis constituídas pelo número de plaquetas e pelo grau de ativação dos fatores XI e XII são eliminadas na adição de um fosfolípede e de um ativador (Ácido Elágico), que levam a resultados mais reprodutíveis e a uma maior sensibilidade do que nas determinações do Tempo de Recalcificação do Plasma (TRP) e Tempo de Tromboplastina Parcial (TTP).

TP TTPa Interpretações Clínicas
Prolongado Normal Deficiência do Fator VII
Normal Prolongado Deficiência de um dos Fatores:
X, IX, VIII, XI ou XII
Prolongado Prolongado Problema hepático na formção de vários Fatores ou 
Deficiência de um dos Fatores: V, X, II ou I
Normal Normal Indivíduo normal ou Problemas de coagulação plaquetária

A Biotécnica disponibiliza no mercado o kit de Plasmas Controles de Coagulação, com TP e TTPa dosados por métodos óptico e mecânico, com faixa de valores disponibilizados para Plasma Normal (Nível 1), Moderado elevado (Nível 2) e Muito Elevado (Nível 3). Em seus kits estão inclusas ampolas de água purificada estéril para reconstituição segura dos reagentes liofilizados.
É recomendado ao Laboratório de Análises Clínicas a utilização de no mínimo um Plasma Controle de Coagulação Nível 1, Nível 2 ou Nível 3 para rastreabilidade da reação e Controle de Qualidade Interno, atestando a confiabilidade do resultado.